A companhia que desenvolveu o jogo declara apenas considerá-lo inócuo ao mundo real. No entanto, se estivermos a perpetuar invasões de privacidade em vez de questionar essa ideia, não seria esse tipo de jogo intitulado "Sem Piedade" verdadeiramente prejudicial?
Infelizmente, teria muitos tópicos para escrever esta crônica dessa semana, já que, nas últimas semanas, o jornal diário tem sido preenchido com notícias lamentáveis e discriminatórias contra as mulheres.
- Braga: Um jovem de 19 anos avisou o guarda sobre alterações em bebidas em uma boate e foi fatalmente apunhalado por um grupo. (Jornal solusikaki.com, 13 de abril) ;
- Soldado do Exército grava a si mesmo agredindo sexualmente uma mulher e compartilha o vídeo num grupo de WhatsApp (Sic Notícias, 12 de abril) ;
- Conteúdo misógino está incentivando meninos do Reino Unido a caçar garotas vulneráveis em fóruns de suicídio. (Jornal The Guardian, 12 de abril) ;
- A justiça concedeu-lhe uma nova chance, mas o ginecologistas revisitou os maus-tratos aos seus pacientes. (Jornal Público, 9 de abril) ;
- Jogo "No Mercy" relacionado com abusos e incesto removido do Steam (Jornal Público e Lusa, 11 de abril) .
Todas estas ocorrências partilham de um elemento comum: um sistema de misoginia enraizada, onde atitudes prejudiciais são aceitas ou mesmo intensificadas dentro de comunidadesParallelGroup . Assim, O problema já existia anteriormente ao momento em que um jovem denunciou a adulteração de bebidas com uma faca, antes da violência sexual cometida por um militar e compartilhada via WhatsApp, antes das postagens feitas pelos agressores nos fóruns online, antes do médico obstetra ter reincidido em seus atos abusivos e muito antes mesmo da criação desse jogo: a misoginia não surge espontaneamente; ela se desenvolve gradualmente.
Vamos examinar, nesta semana, a existência do jogo "No Mercy".
Não se trata apenas de ficção, é a materialização da cultura do estupro em um jogo.
Todos têm as suas fantasias sexuais, pelo menos é o que se presume, mas nenhuma dessas devia envolver violar uma pessoa.
Tudo tem início na criação robusta do modelo de gênero masculino, previamente concebido para os homens – isso não é uma justificativa, mas sim um contexto. Uma estrutura dominante e patriarcal que estabelece a superioridade natural do homem, enquanto também funciona como uma cela definindo os limites do que é aceitável ou não num "verdadeiro" homem: alguém robusto, valente, jamais frágil, provedor da família, heterosexual, sempre disponível sexualmente, com muitas conquistas sexuais, considerando as mulheres inferiores e suas propriedades pessoais, cheio de ambições. Pois bem, esse padrão acaba gerando sempre frustração, pois é bastante desafiador de atingir por completo, sobretudo quando entram em jogo elementos alheios ao controle individual. Para ilustrar, ter relações sexuais frequentes com mulheres está diretamente relacionado à disposição dessas parceiras para isso.
Várias vezes, jovens masculinos que enfrentam dificuldades para encontrar parceiros sexuais ou relacionamentos românticos buscam uma sensação de identificação dentro dos grupos Incels - termo usado para designar homens que são acidentalmente celibatários -, expressando assim sua revolta pelas recusas das quais sofrem nas mãos femininas. As potenciais implicações desses agrupamentos podem ser observadas tanto na popular série "Adolescência" quanto nos eventos criminais ocorridos, incluindo o massacre cometido por Elliot Rodgers em 2014. Essa figura controversa, conhecida como ícone entre os Incels à época, matou seis indivíduos e deixou outros catorze feridos antes de tirar a própria vida utilizando-se da mesma arma usada no delito. Elliott era membro ativo desta subcultura online. Em seu último comunicado público, ele detalhou seus motivos, mencionando especificamente a fraternidade Alpha Phi: "aquele tipo exato de garota que sempre sonhei conquistar, mas pela qual jamais fui notado". citando o assassino .
Nesse ambiente prejudicial que trata as mulheres como posse, aumenta-se igualmente a imaginação pervertida e o delito da estupro. Quando surge esta espécie de ilusão, inserida nessa 'cultura de estupro', deve-se desmontá-la dentro do ambiente terapêutico para formar um entendimento saudável sobre relacionamento íntimo. Contudo, algumas indivíduos incentivam essa cultura de estupro, tal qual ocorre com os produtores e divulgadores deste jogo. “No Mercy”.
As mulheres não estão obrigadas a ter relações sexuais com ninguém, independentemente do contexto. Mesmo que sejam casadas, isso não as obriga nem mesmo aos seus próprios maridos. Contudo, o jogo "No Mercy", desenvolvido pela Zerat Games, incentivava os jogadores a assumirem o papel do "piores pesadelos para as mulheres" e continha cenas explícitas de violência sexual, inclusive envolvendo incesto, chantagem e estupro. Disponível na Steam, uma das principais plataformas digitais de videogames, a descrição deste título incluía ainda frases como "aceitar um 'não' é impensável".
A empresa por trás do jogo declara unicamente que ele é inofensivo ao mundo real. No entanto, se estivermos na verdade a promover a ideia da violação em vez de simplesmente ignorá-la, podemos questionar se este tipo de jogo chamado "No Mercy" pode realmente ser considerado inofensivo? Na minha opinião, jogos deste género sugerem implicitamente que, desde que ocorra às escondidas e seja compartilhado apenas entre amigos através de vídeos games, seria tanto tolerável quanto normal violentarem-se as mulheres. Tudo isso me remete ao alegou-se um caso de homens que cometeram estupro coletivo contra uma menor no Metaverso Será que não acontecer de fato torna isso aceitável? Não, não torna.
Na verdade, A simples presença deste jogo reflete uma sociedade misógina que considera as mulheres como propriedade. Vamos considerar as diversas camadas do problema:
- Um conjunto de indivíduos, possivelmente do sexo masculino, se uniu para criar este jogo;
- Um conjunto de indivíduos desenvolveu o jogo;
- Um conjunto de indivíduos confirmou e espalhou-lo;
- Muitas pessoas ao redor do globo adquiriram "No Mercy" após examinarem a sinopse e entenderem sobre os elementos presentes no game.
A violação não deve ser tratada como um jogo. A compreensão das relações sexuais não pode estar baseada na perspetiva da cultura do estupro. Não se trata de censura, mas sim de educação para a vida adulta e sobre como encarar as mulheres. O jogo seria igualmente problemático se incentivasse os usuários a cometerem atos violentos contra homens.
Face a esta situação, diversos indivíduos, instituições e plataformas de mídia expressaram sua ira, em particular a CEG (Comissão para a Equidade de Género) Em Portugal, junto com a NCOSE (Centro Nacional de Exploração Sexual dos Estados Unidos), isso levou à remoção do jogo da plataforma Steam. Contudo, o título permanece acessível em outras plataformas.
Não necessitamos de maior disseminação de ódio em relação às mulheres; é imperativo parar de promover uma cultura relacionada à estupro. Temos tido suficientes notícias verdadeiras, sem a necessidade de vermos seus reflexos nos jogos eletrônicos. O que realmente importa são aumentarmos os esforços preventivos e educativos.