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Em um artigo para um site brasileiro, o ex-primeiro-ministro destaca as vulnerabilidades das forças armadas russas e a condição atual do poderio militar na Europa. Ele também condena a mídia e os líderes políticos por passarem "de uma cultura de paz para uma cultura de guerra".

O ex-primeiro-ministro socialista José Sócrates questiona as afirmações de "senso comum" que sustentam a proposta de reequiparar a Europa e argumenta que a Rússia demonstra fragilidade militar ao invadir a Ucrânia.

Estes pontos estão presentes num artigo escrito pelo ex-líder do PS (2004/2011), e publicado na segunda-feira no site brasileiro. ICL Notícias , com o título "A Europa Novamente: A Cultura da Paz e a Cultura da Guerra".

"O aspecto negativo do mais recente discurso sobre o rearmamento europeu está na maneira como é apresentado – 'uma mera questão de bom senso', afirmam eles. Isso não é uma decisão nem uma opção política; é apenas considerada sensatez," comenta José Sócrates.

Pois bem, tratando-se de um assunto de sensatez, conforme mencionou o ex-primeiro-ministro, logo se conclui que “não há necessidade de discussão, muito menos de bons argumentos”.

"A situação explica-se por si mesma: a invasão russa na Ucrânia e o afastamento dos Estados Unidos do conflito não oferecem opções. É assim que se forma um pensamento único — denominado bom senso", argumenta.

Em seu artigo, embora não se dirija especificamente aos actuais líderes das instituições europeias, José Sócrates condena "a pressão da mídia pelo processo de rearmamento", afirmando que essa pressão é tão intensa "que qualquer pessoa que questione isso é instantaneamente exilada para o limbo ao qual as democracias relegam loucos e heréticos".

“Eis, portanto, a nova cultura política europeia: o discurso da paz é radical, o da violência é normal. A paz é a retórica dos fracos”, conclui.

Segundo o ex-secretário-geral do PS, a invasão da Ucrânia "não intensificou a ameaça russa, antes demonstrando a sua debilidade".

"Se o exército russo não foi capaz de vencer na Ucrânia após três anos, é difícil imaginar que possa ter êxito ao tentar invadir a Europa Ocidental", argumenta ele, passando então para discutir as implicações da nova política exterior dos Estados Unidos sob a gestão de Donald Trump.

"É indiscutível que a atual gestão enfraqueceu a aliança transatlântrica e abalou a confiança subjacente ao Artigo 5° da Otan (um ataque contra um é um ataque contra todos). Concordo com essa visão. Contudo, a guerra na Ucrânia desfez uma crença arraigada há várias décadas: a ideia de que a Europa depende dos EUA para sua própria defesa. Isso não reflete mais a realidade", argumenta-se.

Conforme José Sócrates, "a Europa possui mais soldados, tanques e aviões de guerra do que a Rússia; além disso, a Europa investe mais na área militar em comparação com a Rússia (em 2024, os países europeus membros da OTAN desembolsaram 476 bilhões de dólares nessa área, enquanto a Rússia registrou um gasto aproximado de 140 bilhões)".

"Estes dois indicadores me parecem adequados para refutar o principal argumento por trás da corrida armamentista", destaca.

José Sócrates recorre então ao estudo da história europeia para emitir dois alertas; o primeiro está ligado "ao risco representado pelo expansionismo eslavo como justificativa bélica".

"Nunca existiu imperialismo sem força militar e a Rússia carece dela. Se isso acontecer, ela não representa um perigo", argumenta.

A sua segunda advertência está ligada ao rearmamento alemão e às possíveis implicações que isso pode ter nas históricas disputas entre França e Alemanha, bem como na função tradicional da "Grã-Bretanha" em manter um equilíbrio de forças dentro do cenário continental europeu.

Para José Sócrates, o assunto do rearmamento alemão representa "a alteração fundamental".

"Esta é realmente a vontade da Europa? Restaurar as dinâmicas de equilíbrio de poder dentro do continente europeu? Trazer novamente desconfianças e medos à tona? Quanto tempo levará para que a França comece a temer o poder militar do seu vizinho alemão? E quando será que a Inglaterra vai começar a calcular estratégias para prevenir um único país dominando todo o continente com sua força militar?" questiona-se.

José Sócrates expressa sua tristeza por ver a Europa "limitada a discutir sobre guerras, armamentos e inimigos existenciais".

“Como se a paz fosse impossível e a guerra eterna. O que está a acontecer na Europa não é apenas uma mudança de prioridades políticas, mas uma séria e profunda mudança de cultura política — a cultura da paz pela cultura da guerra”, acrescenta.

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