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Existem aqueles que transportam flores, outros que fazem entregas de encomendas, e então temos Pedro Frazão, o deputado-carteiro do Chega, que optou por revolucionar a política com uma atitude que mistura a lentidão típica de um carteiro em atraso com a dedicação exagerada de um escoteiro entusiasmado.

A localização selecionada foi? A entrada da casa dele.

primeiro-ministro. A justificativa? Uma carta. E o assunto? Como de costume: mais aparência do que essência.

Com a Assembleia Nacional dissolvida e sem uma plataforma para dramatizar a sua ira, Pedro Frazão optou por criar um novo cenário: as ruas da cidade.

Trocou a nobreza da Assembleia por um passeio em Espinho, misturando moralismos de subúrbios com uma forma simbólica de panfletar. No fim, para quê ter instituições quando é possível entregar correspondências como se fossem folhetos religiosos aos domingos pela manhã?

No entanto, passemos aos pormenores: Luís Montenegro, que ainda exerce as funções de primeiro-ministro, nem sequer foi formalmente acusado de qualquer coisa. Contudo, isto é completamente indiferente para o Chega, um partido onde a presunção de inocência já há muito tempo cedeu lugar à suposição do espetáculo.

Frazão não oferece justiça nem certeza — dá apenas papel. Um papel sem importância, que tem o mesmo peso moral de um folheto que diz "compramos ouro".

Não é a primeira vez que Pedro Frazão manipula informações. Em janeiro de 2024, ele publicou um gráfico sensacionalista referente à denominada "substituição populacional", o qual foi desclassificado pelo Polígrafo como falsa, pois as comparações apresentadas eram entre dados estatísticos totalmente diferentes. Trata-se de uma técnica visual enganosa, comum nos círculos do WhatsApp onde se encontram entusiastas do pânico e políticos buscando apoio fácil.

E isto não é tudo. No ano de 2021, Frazão recebeu uma sentença condenatória por crime de difamação emitida pelo Tribunal de Cascais. Tudo aconteceu porque ele fez graves acusações falsas contra Francisco Louçã, sugerindo que este último havia recebido dinheiro ilegalmente do BES. Como resultado dessa decisão judicial, Frazão precisou fazer um mea-culpa público para se retratar das afirmações infundadas. Ter um membro ativo da nação sendo refutado assim por um órgão jurídico destaca realmente até onde vai o seu suposto profissionalismo político: fala antes e só então começa a pensar nas consequências.

corrige se der jeito.

No entanto, admitamos, isso não causa nenhuma surpresa vindo do Chega — o partido que substituiu sua ideologia por uma constante indignação. É como se fosse um programa de realidade política em que os argumentos são apenas adereços dispensáveis e as poses assumidas têm total importância. André Ventura, líder deste grupo, já nos acostumou com situações lastimosas capazes até mesmo de envergonhar os menos hábeis entre os demagogos.

Lembremos, por exemplo, da vergonhosa sugestão de "repatriar" Joacine Katar Moreira para o seu país de origem - uma forma encoberta de racismo apresentada como patriotismo. Joacine, sendo cidadã portuguesa e eleita democraticamente, foi vítima de um discurso que, numa democracia bem estabelecida, provocaria condenação generalizada.

No entanto, no Chega, o escândalo não é uma coincidência — ele é a força motriz.

É igualmente o partido que equipara as cotas de gênero à colheita da fruta, que se posiciona contra quaisquer políticas inclusivas como se estivéssemos em conflito com o amanhã, e que adere ao uso do insulto como meio de expressão pública. Para Ventura e seus seguidores, o campo do debate político não é um local para troca de ideias, mas sim uma arena de boxe verbal na qual todas as táticas são permitidas, contanto que aumentem os acessos aos conteúdos apresentados.

A missiva de Frazão, então, não representa um movimento político. Trata-se mais de uma mímica. Uma demonstração vazia de virtude ética, dada a ausência de propostas legais concretas. Este comportamento símbolo é tão insubstancial que chega a ser prejudicial. Pois minimiza as perseguições, enaltece os delatosres e converte a atividade política em espetáculo onde já não há debates sobre ideias — somente se acusam uns aos outros.

Na essência, aquilo que Frazão proporcionou não era propriamente uma missiva; tratava-se antes de um símbolo. Uma advertência sobre o facto de estarmos a tornar o populismo algo banal e aceitar-no quase como opção viável. Indica ainda que recebemos o caos em lugar do raciocínio sem grande objeção. Sugere também que equivocamo-nos ao tomar atrevimento pela ofensa pública. Enquanto isto sucede, as estruturas fundamentais da nossa democracia são lentamente minadas internamente, através dessa mesma sequência infinita de sinais.

E quem arca com o custo? Nós. Somos os receptores indesejados dessa correspondência política não requisitada.

Aqueles que continuam acreditar que a política deve ser conduzida com seriedade, em vez de se transformar em uma encenação cênica. Existem pessoas ansiosas por encontrar soluções, contudo, o Chega oferece-lhes apenas um espetáculo teatral.

No entanto, o que o deputado em causa ignora é que "quem semeia ventos colhe tempestades". O boletim chegou e veio para ficar.

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