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Pedro Nuno Santos, seja bem-vindo, tenha uma excelente tarde. Não deixe que minha escolha de roupa em rosa o engane, é simplesmente um gesto amigável.

Muito obrigado.

Por acaso, em relação à questão da etiqueta, porque é que você, ou uma pessoa sua, talvez um assessora, respondeu à Lili Caneças?

Ah, não fui eu.

Foi mesmo?

Não, claro que fui.

Mas poderia ter sido um conselheiro?

Não, fui eu.

Mas porquê?

Devido a... pois a Lili Caneças, na verdade, expressou o que muitos pensavam. Na minha opinião, também já tinha notado isso antes. Esta foi a primeira ocasião em que compreendi haver uma discrepância entre como os espectadores nos via pela TV e quem realmente sou. Isso aconteceu durante uma feira em Montemor-o-Novo, quando me sentei à mesa com outros membros do Partido Socialista. Embora estivéssemos num arranjo de mesas continuo, acabei por ficar isolado na extremidade da fila, ao lado de uma dama. Conversamos descontraidamente até que após vários minutos ela se voltou para mim dizendo: "Não sabia disso. Não imaginava que fosse tão diferente das aparências." Ela achava que parecia sério ou sisudo, mas descobriu que não era bem essa impressão.

Simpático e bom rapaz.

Exactamente, ele era uma pessoa amigável e de boa índole. Foi nesta ocasião inicial que me dei conta dessa... há essa discrepância, por vezes, especialmente em indivíduos sem...

Mas essa ideia que havia, não direi generalizada, mas em milhares e milhares de portugueses, tem a ver com atitudes suas, nomeadamente com uma postura mais, talvez, impulsiva, intempestiva, nomeadamente em debates, no ano passado.

Sou exatamente quem era há um ano. O que mudou foram os cenários nas quais atuo e pratico políticas. Acabara de me tornar secretário-geral do PS quando o governo encerra de forma imprevista; então, lanço minha candidatura à liderança do Partido Socialista, pronta para as eleições em março — esse período foi extremamente tenso para mim. Realizei uma campanha carregada de pressões, enfrentando desafios novos para mim enquanto assumia a direção de um dos partidos históricos como o PS, com grandes obrigações e consequentemente muitas tensões. Por essa razão, fui alguém bastante fechado naquele tempo. Mas este último ano trouxe-me calma e equilíbrio, permitindo-me manter a essência da pessoa que sempre fui.

Mas onde estará realmente o verdadeiro Pedro Nuno Santos? Será naquela imagem mais combativa que chegou a ameaçar, há alguns anos, castigar fisicamente os bancários da Alemanha? Ou será neste novo personagem que surge agora e que, adicionalmente, está a receber louvores de diversos analistas? Mais conciliador, menos impulsivo. Onde estaria então a sua essência original?

Todinho isso é autêntico. Frequentemente, tornamo-nos reféns das nossas condições. Quando estamos mais jovens, com o passar do tempo, fomos ganhando maturidade. Estou envolvido na política desde há bastante tempo, e existem atitudes que tomava aos 20 anos que hoje, aos 48, já não pratico. Os indivíduos transformam-se ao longo dos anos. Certas imagens ficam gravadas, contudo seguimos em constante progressão e desenvolvimento ao longo da nossa jornada vital. Com a idade vem igualmente uma maior serenidade.

No entanto, quando era mais novo, estudante do ISEG, era muito apreciado pelas mulheres que trabalhavam nas lanchonetes da escola e recebeu o título de Sr. Simpatia após ser iniciado e praxado pelos colegas. Assim sendo, tinha uma personalidade afável e era bastante extravertido.

Acredito que costumava levar as coisas muito a sério e ficar excessivamente na defensiva durante os debates políticos. Atualmente, vejo isso de forma diferente, com maior descontração.

Mas ele se defendia por quê? Ele não tinha consciência de seu próprio potencial?

Não, pois eu levava seriamente demais minha função profissional e, por vezes, isso nos faz ficar extremamente atentos ao que estamos executando.

Isso conduz a um tema bastante fascinante, pois por muito tempo pensei que nas eleições legislativas as pessoas focavam-se nos partidos e nos respectivos programas. Suponho que grande parte dos portugueses nem sequer olha para os programas das formações políticas. Actualmente, será que o eleitorado também dá importância ao perfil do candidato a primeiro-ministro?

Não tenho dúvidas nenhumas.

Isso está relacionado com o assunto sobre o qual temos vindo a discutir.

Claro. Na minha opinião, isso sempre aconteceu. Acredito que os indivíduos se conectam uns com os outros. Naturalmente,...

No entanto, eu estou a votar em um partido, não está pessoalmente.

Em um jogo, em um programa, ou até mesmo em uma liderança. Na realidade, já afirmei diversas vezes que liderança e projeto são como as duas faces da mesma moeda. Repeti isto muitas ocasiões. Pois bem, esses elementos não se encontram desconectados; as ideias não ficam separadas da pessoa nem a maneira de gerenciar, interagir com outras pessoas e equipes está relacionado à personalidade do líder. Acredito portanto que este aspecto de tomar decisões sobre as vidas dos indivíduos estava sempre presente. Com a crescente atenção midiática atual e a predominância das mídias sociais, essa questão adquire mais relevância. Existe agora uma curiosidade intensa pelo cotidiano pessoal, familiar, profissional e político deste individuo. Durante bastante tempo, pensei nisto como algo prejudicial pois considerava desnecessário expor a vida privada neste contexto, contudo estou errado. Essencialmente, a vida particular possui grande importância para o exercício efetivo desta função pública.

Os tempos também mudaram.

E não é menos verdadeiro, pois a maneira como interagimos com os nossos colegas de trabalho reflete-se na relação que temos com familiares e amigos, bem como em como lidamos com a nossa carreira. Por essa razão, considero essenciais estes tipos de entrevista que realizamos; penso até que têm um valor significativo ao ultrapassarem aquela abordagem convencional às entrevistas políticas, que muitas vezes se concentram exclusivamente nessas questões partidárias. Acredito firmemente que este aspecto humano está tornando-se cada vez mais relevante para determinar quais líderes desejamos ter à frente da gestão do nosso país.

E dessa forma, essa sua posição distinta já me esclareceu sobre as razões e os motivos pelos quais isso é relevante nessas eleições?

Não se trata apenas de concordar.

É este o casaco adequado para si?

Isso não se trata apenas de concordar ou discordar. Devemos nos apresentar como realmente somos, em sintonia com nossas próprias conveniências. A concepção de que podemos esconder nossa verdadeira identidade e desempenhar papéis diversos é algo reservado aos atores experientes que dedicam tempo ao estudo e à prática. Mas na realidade da vida...

O político não possui nenhum traço de um ator?

Tem todas estas pessoas em nossas vidas, porém nem sempre nos dedicamos a esse aspecto como profissionais; nunca dominámos as técnicas de representação. Agora, é a vida que se encarrega de fazer com que fiquemos mais rudes ou mais suaves. Foi a experiência vital ao longo deste último ano à frente do Partido Socialista que me trouxe grande serenidade — foi o que fez realmente essa diferença.

Embora haja divisões no Partido Socialista? Está o partido do seu lado? Estará o partido unido com você nessa batalha? Faço-lhe esta pergunta pois, por exemplo, Sérgio Sousa Pinto foi retirado da lista e ocorreram outros casos semelhantes.

O Partido Socialista tem 80 mil militantes. É o maior partido português. Nós estamos em todo o território, temos muitos militantes e foi sempre um partido com uma grande vivacidade interna.

Na verdade, o senhor afirma estar satisfeito com o partido por possuir múltiplas perspetivas e diversificadas ideias, considerando isso como um bem valioso. No entanto, será que essa união do partido em prol de uma causa comum não contribuiria ainda mais para a sua prosperidade?

E estamos. Em todos os atos eleitorais há pessoas que continuam, há pessoas que não continuam, há pessoas novas a entrar. Isso faz parte da vida de um partido. Nós temos que encarar com naturalidade e também temos que encarar com naturalidade a opinião diferente e a crítica e pessoas que não gostam de nós. Isso faz parte da vida. E nós temos que encarar isso com normalidade.

Um dos comentários mais frequentes, após os seus debates com os seus adversários, uns mais adversários que outros, é que o senhor está a vestir, ou tem conseguido vestir, o casaco de primeiro-ministro. Que primeiro-ministro é que seria?

Bom, quer dizer, a primeira...

Coloquei entre aspas o termo "casaco".

Claro, entendi. O meu objetivo é principalmente tornar-me uma primeira-ministra acessível ao público e compassiva. Na verdade, desempenhamos melhor as nossas funções à medida que aumentamos a nossa habilidade em compreender e partilhar as dificuldades alheias. Sem esta aptidão, mesmo com muitos peritos do nosso lado, ainda assim não conseguiremos realizar um bom trabalho. Para mim, é essencial possuir a capacidade de escutar e sensibilizar-nos pelos problemas dos outros, pois se conseguir desenvolver estas competências estarei preparada para exercer o cargo da forma correta.

Mas o senhor já foi ministro. O senhor já teve decisões a tomar. Aqui temos alguns telhados de vidro. Temos o problema do escândalo da TAP com a Alexandra Reis e uma indemnização de 500 mil [euros] temos depois também o célebre caso da localização do aeroporto. Isto não pode macular a perceção que os portugueses têm de si?

Eu tenho muito orgulho do trabalho que fiz. E o Manuel Luís Goucha sabe, como qualquer português, que quando nós estamos a fazer um trabalho não corre sempre tudo bem. Julgo eu que não lhe corre sempre tudo bem. Há momentos em que nós devíamos ter feito diferente. E isso, agora, a atitude com que nós temos perante os erros ou as coisas que nos correm bem é que nos definem.

No entanto, por exemplo, algumas pessoas — peço desculpa por interromper — quando se falava sobre a localização do aeroporto chegavam à conclusão: “Aqui está alguém com responsabilidades governamentais que não dá o devido valor à hierarquia.” Esta narrativa poderia ter outro significado e talvez num futuro venhamos a descobrir mais detalhes. No entanto, essa impressão fixou-se nas mentes dessas pessoas. Não tenho certeza até que ponto... as recordações podem ser efêmeras e essas situações tendem a esquecer-se rapidamente.

Mas eu não desejo que isso seja esquecido pois, para mim, o aspecto mais difícil é que esse país precisou de 50 anos apenas para determinar a localização do aeroporto. Eu trabalhava no Ministério das Infraestruturas e tínhamos em nossos arquivosp 17 locais diferentes analisados. Não restava nada mais para ser examinado; era preciso tomar uma decisão. Isso realmente me incomoda bastante...

À revelia do primeiro-ministro?

Não, isso não foi decisão unilateral do primeiro-ministro. Essa situação pertence a outro capítulo da narrativa. Assim que sair da política, vou abordar essa ocasião. Vou relatar essa circunstância.

Quando sair da política, provavelmente já estarei morto, mas enfim.

Não, não pretendo passar a minha vida inteira envolvida na política.

Também não tenho planos para passar o resto da minha vida na televisão, mas enfim.

No entanto, podemos nos encontrar e trocar ideias. O que realmente me preocupa em nosso país são as pessoas demorarem muito para tomar atitudes, perdendo a oportunidade de agir. Na vida pessoal, profissional ou até mesmo nas questões políticas, sempre haverá opiniões divergentes e críticas. Frequentemente, isso causa medo entre os líderes políticos, levando-os a protelar decisões importantes que precisam ser feitas imediatamente. Lembro bem da construção da barragem do Alqueva; por várias décadas procrastinamos essa medida. Hoje ela é amplamente reconhecida como essencial.

E por que razão estamos a adiar as decisões?

É por isso mesmo, pois considero que enfrentamos desafios e procuramos evitá-la crítica. Aliás, esta é uma característica bastante típica em cultura portuguesa.

Por que é que a critica pode resultar numa penalidade de votos?

Compreendo. No entanto, as repercussões negativas são significativamente maiores porque optamos por não tomar decisões. As primeiras pesquisas relacionadas ao novo aeroporto foram conduzidas por Marcello Caetano em 1972 e isso me parece incompreensível. O caso é similar com a TAP. A situação mencionada anteriormente não teve um desfecho positivo. Na verdade, herdei uma companhia que se encontrava em estado falimentar, cujas aeronaves permaneciam paralisadas, e durante boa parte do seu passado raramente apresentou resultados favoráveis. Mesmo sob gestão privada, ela praticamente sempre registrou prejuízos até agora, mas está no terceiro ano seguido lucrando.

E de que forma é que esse indivíduo, não o figura política, mas sim ele próprio, lidou com aquela experiência? Foram tempos difíceis, pois logo após precisou disputar a liderança do Partido Socialista. Como equilibrou tudo isto? Terá sido um período intenso e exigente?

Foi realmente muito difícil, esse foi um tempo extremamente desafiador tanto para mim quanto para a minha família. Mas assim são as voltas da vida, certo? Passei por uma fase incrivelmente intensa quando deixei o governo, e pouco mais de um ano depois fui eleito secretário-geral do Partido Socialista, algo que também demonstra como a vida pode nos surpreender positivamente, não é verdade?

Na verdade, consideravam-no como político terminado, não foi?

E isso é bom também percebermos que nós passamos…

Mas como é que se lida com isso? Um homem que vive a política.

Com dificuldade, mas tem que soltar, temos que saber lidar. Agora, não é fácil, não vale a pena fazer de conta que é fácil, porque, obviamente, aquele foi um momento difícil, eu estava a fazer um trabalho, eu estava satisfeito com o trabalho que estava a fazer, houve ali uma situação que correu mal e assumi a responsabilidade, que acho que, aliás, é outra coisa que muitos políticos não fazem e que devem fazer. Assumir responsabilidades quando as coisas não correm bem. Lembro-me sempre do Jorge Coelho, o falecido Jorge Coelho, quando cai a ponte, ele não era o responsável, obviamente, direto, mas era o responsável político.

Era ministro da Administração Interna.

Das Obras Públicas.

Das Obras Públicas, sim.

Tínhamos o mesmo cargo. Ele aceitou as consequências políticas disso. Claramente, nunca ocorreria a alguém sugerir que o Jorge Coelho fosse culpado pelo desabamento da ponte. Eu sinto que fui obrigado a agir dessa forma. Nos meses subsequentes, foi um período difícil; enfrentei até uma comissão parlamentar de investigação, que também não foi fácil, mas essa é a natureza da vida.

Teve um filho chamado Sebastião e teve também um pai atento que o levava à escola, à piscina e aos jogos de hóquei.

Claro, nesse intervalo de tempo, o Sebastião sempre pode contar com minha ajuda.

Qual é a importância deste filho em sua vida?

Ele é a pessoa mais essencial para mim. Minha esposa também se enquadra nisso, claro. No entanto, são tipos de amor distintos. O Sebastião ainda é um menino. Ele é meu filho. Tem oito anos. E ele é a pessoa mais significativa em minha vida.

Está de novo sacrificado.

E esta é a parte mais desafiadora para cada um de nós. É o aspecto mais complicado dessa realidade política, quando nos pegamos refletindo frequentemente se tudo isso tem valido a pena.

Pergunto-lhe, vale a pena?

Espero que seja válido. Acredito ser possível melhorar a vida de outras pessoas, de todos os portugueses.

Essa é uma conversa que escutamos há 50 anos.

Tudo certo. Não posso falar pelas outras pessoas, mas posso expressar minha própria opinião. Não dependo da política para ter uma vida digna. Estou aqui pois desejo contribuir com o meu esforço para o desenvolvimento do nosso país e dos demais indivíduos. Realmente tenho convicção de poder causar um impacto positivo. No entanto, esses passos têm implicações familiares significativas. Principalmente afetam diretamente meu filho. Essa é indubitavelmente a parte mais difícil para mim.

O seu filho continua a estudar no Colégio Moderno?

Exatamente.

Por que optar por uma escola particular se é favorável ao ensino público?

Sou um defensor do ensino público e quero que a escola pública...

A minha pergunta não contém nenhuma critica.

Não, pois isso implica... visto que observo frequentemente essa abordagem sendo utilizada para identificar contradições, como se os socialistas estivessem em desacordo com a existência de escolas particulares. O que pretendemos é...

Na verdade, o Colégio Moderno é uma instituição escolar importante da família de Mário Soares.

O que almejamos e o objetivo que pretendo alcançar como político é garantir que a educação pública seja de alta qualidade e alcance o máximo nível possível desse padrão. Isso já existe hoje. Toda minha trajetória educacional foi realizada nas escolas públicas: primeiro em São João da Madeira e mais tarde no ISEG em Lisboa. Como político, desejo assegurar que a escola pública ofereça excelência, permitindo assim que todas as crianças, independentemente do seu background familiar, recebam uma formação de alto nível.

Qual é o segredo para obter uma educação de alta qualidade nestes dias atuais?

Precisamos admitir, embora enfrentemos várias adversidades, creio que o sistema educacional público ainda oferece uma educação de alto nível. Claro, sempre há espaço para evolução e aprimoramento, especialmente...

Então por que motivo não matriculou o seu filho numa escola pública?

Devido à decisão familiar, prefiro não abordar esse assunto neste momento, pois trata-se de uma escolha conjunta com minha esposa. No entanto, isso não afeta minimamente o meu comprometimento ou o nosso compromisso como família com a educação pública de qualidade. Repito: não pretendo impedir ninguém de matricular seus filhos numa instituição particular; contudo, enquanto figura política responsável por um governo, cabe-me assegurar que a escola pública ofereça excelência educacional. Como mencionei anteriormente, creio firmemente que o aspecto crucial para qualquer aprendizado eficaz seja o papel fundamental do professor. Infelizmente, nos últimos anos notou-se uma deterioração nas relações entre o país, nossa comunidade social e até mesmo nossas autoridades governamentais com esses profissionais tão indispensáveis. Portanto, devemos focar em elevar a estima pela carreira docente e fazê-la ainda mais apelativa aos novos talentos. Atualmente observamos menor interesse dos jovens nesta área vocacionada, sendo ela indubitavelmente uma das mais significativas e necessárias.

O governo que agora cessou funções não valorizou os professores?

Quando o Partido Socialista estava no poder, por isso mesmo não era para pensarmos nas eleições, pois só depois soube-se que o governo socialistas iria terminar. Mesmo assim, há muito tempo venho argumentando — inclusive no meu programa na SIC Notícias — que deveríamos restaurar as condições laborais dos docentes e considerar toda a sua antiguidade profissional. Sempre sustentei esta posição porque entendo que, tal como exigimos das empresas privadas que respeitem os contratos estabelecidos com os funcionários, o Estado Português deve fazer o mesmo perante os educadores.

Estávamos em discussão sobre o seu filho quando surgiu a questão da juventude. Ainda não percebi bem como aborda esse mesmo eleitorado jovem — especialmente aqueles que têm idade para votar mas podem ser considerados os mais temidos pelo partido, dado estarem bastante vinculados às redes sociais e, consequentemente, próximos do Chega. De que forma pretende atrair esses novos eleitores sem ter de lidar com uma falta de referências históricas ou memórias ligadas ao passado político? Essa geração cresceu sem essa conexão temporal.

Sim, ao observarmos toda a Europa, percebemos que este não é um problema exclusivamente português; os jovens estão a votar predominantemente à direita e na extrema-direita. Com algumas excepções — como ocorreu na França, onde os mais novos optaram pela esquerda, ou no Reino Unido, onde apoiaram o Partido Trabalhista — esta tendência tem-se mantido. Estamos a tentar chegar até eles através das redes sociais, já que são esses os espaços onde se encontram.

Por quê isto está acontecendo?

Por várias causas distintas. Uma delas está relacionada com fatores bastante pragmáticos. Embora seja certo que os jovens atuais possuam graus de escolaridade superiores aos de seus pais, também é real que a independência financeira se tornou um processo mais complexo atualmente. Isso faz com que muitos permaneçam na residência paterna por períodos além do planejado, pois enfrentam dificuldades para adquirir moradias próprias ou lidam com rendimentos insuficientes. Consequentemente, isso resulta numa juventude frustrada, especialmente contra as autoridades e particularmente frente aos grandes partidos que assumiram responsabilidades administrativas. Desse modo, nossa tarefa consiste em demonstrá-los que ainda há valor em confiar nos grupos políticos capazes de implementar medidas efetivas visando ao incremento da qualidade das suas vidas.

É uma geração que não sabe o que seja, por exemplo, uma ditadura.

Este é igualmente uma situação problemática. Por exemplo, verifica-se um aumento de certa agressividade entre os mais novos, bem como manifestações de misogenia dirigidas às raparigas mais jovens. A violência nos relacionamentos amorosos continua elevada e estamos a enfrentar novamente questões que julgávamos estar superadas.

Um retrocesso.

Acredito que do ângulo cultural, pode haver um certo passo atrás; devemos ficar alertas, não é verdade? Desde cedo, cabe aos pais essa responsabilidade, concorda? Da nossa parte… é curioso pois consideramos natural, e está bem assim, que os progenitores determinem até quando as crianças podem permanecer fora de casa. Há aqueles que permitem isso desde muito novos, aos dez anos, enquanto outros somente autorizam após a adolescência, por volta dos quinze. Similarmente, pensamos que os pais precisam prestar atenção nessa questão, mas também na área da internet e mídias sociais. Sempre buscamos...

Enquanto isso, quem se preocupa com essa tarefa é o pai?

Com certeza. Estamos constantemente buscando que o Estado regulamente todos os aspectos, porém existe um elemento familiar nessa equação. Isso também depende de nós. Como pais, somos responsáveis para supervisionar e auxiliar nossos filhos em relação ao uso que eles fazem, por exemplo, das redes sociais e da internet.

A responsabilidade não é apenas dos familiares, mas também o fazem. Isto significa que também cabe a eles. Existe aqui uma tarefa...

Considero que o primeiro dever cabe às famílias, aos pais. Claro está. Em segundo lugar segue-se a escola; todavia, não devemos esperar pelos professores para realizar as tarefas que competem às nossas residências.

O papel educacional pertence aos pais, enquanto a instrução cabe à escola.

Com clareza. Existem depois espaços em que os mais novos se encontram...

O seu filho tem telemóvel?

A minha criança possui um dispositivo móvel carregado com diversos games que apenas pode usar durante os fins de semana, sendo este horário bem limitado. Ele dispõe de uma hora pela manhã e outra na parte da tarde, totalizando duas horas aos sábados e domingos. Isso se torna realmente desafiador; é verdadeiramente difícil. Nos dias úteis ele fica totalmente sem acesso ao telefone celular ou mesmo ao tablet.

Era sobre como atrair os mais novos que estávamos a conversar.

Eu ia dizer que há um espaço onde eles estão cada vez menos presentes. A televisão, os jovens hoje estão noutros sítios, estão nas plataformas, estão nas redes sociais e os partidos políticos, nomeadamente os mais tradicionais...

Onde o senhor não é tão eficaz quanto nós sabemos. Quanto nós sabemos em relação a um líder do Chega. Nem o senhor nem o Luís Montenegro.

Ni um, ni o PS, nem o PSD. Estes partidos históricos, responsáveis por meio século de política, precisam adaptar-se à nova realidade e chegar até onde estão os jovens. Ainda não nos movemos muito nesse sentido. Essa falta de presença torna igualmente mais difícil comunicarmo-nos eficazmente com eles, como fica claro.

As pessoas mais idosas, é algo que lhe preocupa?

Extremamente grande, tal como se torna claro. O Partido Socialista mantém uma relação de confiança bastante estreita com as pessoas idosas.

No entanto, este é ainda um país que não aprecia as pessoas mais idosas.

Ainda assim, posso contar com uma influência especial, pois a Maria de Rosário Gama, que preside à APRE —Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas— mencionou isso para mim. Preciso avisar o Manoel Luís Goucha que deve me convocar.

Isso é um favorzinho? Incrível.

Precisa-me convidar, pois qual é o tema dela? É sobre idadeísmo. Correto. Isso se refere ao preconceito contra as pessoas mais velhas. Hoje eu pude discutir isso com ela, já que comentou ter sido chamada de "menina" no trem novamente, e disse: “Não me chame assim”. Na verdade, ela percebe que conforme ficamos mais velhos, tendem a nos tratar como crianças. Ela mencionava haver essa tendência crescente de sermos infantilizados à medida que envelhecemos.

Sim, é verdade.

E eu falava com ela sobre isso, e para mim, esta é uma das maiores riquezas, o recurso mais subutilizado em nosso país. Estamos a discutir pessoas com 70 anos ou mais, que possuem um vasto conjunto de experiências que nossa sociedade não valoriza adequadamente. Embora essas pessoas talvez não tenham a mesma agilidade física de alguém na casa dos 20 anos, elas trazem consigo uma história valiosa, perspectivas enriquecedoras que podem ser extremamente úteis quando sabemos como utilizá-las ao nosso favor.

E os políticos souberam tirar proveito desse capital?

Bastante pouca coisa. Creio que nós possuímos...

Seja de que partido.

Acredito que devemos falar e criar políticas voltadas aos idosos sem realmente escutar e incluir esses mesmos indivíduos na elaboração dessas políticas. Isso constitui um equívoco total. Em Portugal enfrentamos o sério problema da solidão e do isolamento entre os mais velhos, situação essa que se revela como uma verdadeira praga social.

Seu avô Pratas ainda está vivo?

Não, não, já não me resta nenhum avô vivo.

O que lhe responderia?

Agora?

Quando mais idoso. Embora um mais velho abençoado com uma existence confortável.

O meu avô Pratas era uma pessoa de posição conservadora, porém seria seguro afirmar que ele tinha muita determinação...

Agora prefiro o avô Pratas!

... para combater, para possuir grande vigor.

Mas ele estava tão inclinado para a direita quanto o PSD? Ou talvez até mais à direita? Será esse o assunto da notícia?

Mas o meu pai não é, nem a minha mãe também, mas, sem dúvida, ele era uma pessoa que trabalhava bastante.

Tem boas recordações dele?

Tenho lembranças dele ocupado com o trabalho. Pois ele era uma pessoa extremamente dedicada ao seu ofício, então recordo-o frequentemente envolvido na confecção dos calçados. Portanto, estou certo de que me passaria grande determinação para executar esta tarefa.

Portanto, este aqui é o avô sapateiro, se bem que sapateiro em São João da Madeira não tem a conotação que nós lhe damos habitualmente. Sapateiro, no caso do seu avô, era um pequeno empresário com uma oficina com alguns empregados sapateiros.

Tinha um ateliê pequeno que lhe pertencia integralmente. No entanto, a confecção dos calçados nessa época dependia fortemente do processo manual, com muitas etapas feitas à mão e apenas algumas máquinas sendo utilizadas, mantendo uma natureza bastante artesanal. Lembro-me de segui-lo enquanto ele produzia os sapatos e depois transportava-os em sua van até Lisboa para vendê-los às lojas especializadas. Atualmente, as coisas são bem diferentes.

Estamos assim a referir-nos ainda a uma infância com recursos financeiros abundantes e alguma vantagem.

Não, eu fui um jovem abençoado por circunstâncias favoráveis. Conhecia bem esta realidade e isso teve um impacto em mim. Pois estava envolvido com...

Lidava com outras realidades.

Mantinha-se em contato com diversas realidades e experimentava uma sensação de culpa, pois percebia claramente o abismo entre a sua própria existência e aquela dos filhos de trabalhadores.

E expressava essa culpa ou era algo que tentava lidar internamente consigo mesmo?

Eu julgo que o meu pai era um empresário, mas é um empresário com muita consciência política. E, portanto, a política e a discussão sobre a vida e sobre a vida dos outros sempre teve muito presente. E, por isso, eu tive sempre essa preocupação com a diferença, com as desigualdades.

O que pensam sobre esta nova batalha na qual você está envolvido?

Têm muito orgulho no filho. Esta vida traz também angústia, porque a vida é escrutinada, dizem-se coisas que os pais não gostam, que se fale mal dos filhos. E, portanto, a minha mãe sofre muito mais do que o meu pai.

E verbaliza?

Claro. Hoje já está habituada, aquilo que me dá é ‘parabéns’ e ‘força, gostei muito de ouvir’, mas claro que sofre, cada ataque ao filho, a minha irmã também, a minha irmã também sofre bastante.

Porquê é que nós devemos confiar em si para ser primeiro-ministro?

Sinto verdadeiramente uma intensa determinação para contribuir significativamente para transformar as vidas das pessoas e elevar o nível de vida na nossa nação. Tenho plena convicção de que isso é factível. Considero que Portugal possui um imenso potencial ainda por explorar completamente. Temos a capacidade de realizar feitos notáveis. Seria perfeitamente viável termos uma qualidade de vida superior em Portugal, especialmente se conseguíssemos aumentar a equidade social. Vivemos numa terra onde...

No entanto, houve tranquilidade social no passado ano.

Não, mas eu não me refiro à paz social.

Está a referir-se à justiça social.

Estou discutindo sobre a desigualdade social em nossa sociedade. Já passamos 50 anos de democracia e ainda assim avançamos muito pouco nesse aspecto.

Oh, nisso eu não estou de acordo.

Não, na minha opinião, ele avançou bastante, sim. A nação já não é aquela sociedade atrasada do passado. Tinha taxas altíssimas de analfabetismo e morte entre crianças recém-nascidas. Contudo, refiro-me aos desenvolvimentos recentes, nos últimos vinte anos aproximadamente. Na minha visão...

E o PS esteve no poder durante vários anos.

No entanto, por exemplo, liderou o governo quando nosso país tinha uma população com nível de qualificação muito baixo. Nesse sentido, houve um avanço notável na qualidade do País.

Mas os nossos principais talentos estão a deixar-nos.

Claro, e chegarei até lá. Temos atualmente graduados jovens cujos pais apenas concluíram o ensino primário. Este é um avanço notável que poucas nações conseguiram realizar globalmente. Conseguimos um progresso significativo nesse sentido. Mas por quê? Foi graças à forte dedicação de António Guterres em colocar a educação como prioridade nacional. Cavaco também desempenhou um papel crucial na estruturação das infraestruturas do país. Não possuíamos nem mesmo uma autoestrada conectando Lisboa ao Porto.

Também não devemos esquecer que este é o momento dourado para os fundos de investimento, certo? É bom que temos aproveitado isso.

Não dispúnhamos de uma autoestrada para conectar o Porto à Lisboa nos governos de Cavaco. Posteriormente, António Guterres focou-se na educação e realmente houve um avanço significativo nesta área. Hoje, podemos comparar-nos favoravelmente aos outros países europeus. No entanto, há áreas onde ainda ficamos aquém. Temos investido na formação dos jovens, porém a nossa economia permaneceu estagnada nesse sentido. Assim sendo, possuímos um elevado grau de qualificações que não se alinha com as necessidades do mercado laboral atual neste tipo de economia. Portanto, o maior obstáculo que ainda não superámos é a mudança estrutural da nossa economia, que continua baseada em sectores bastante arcaicos, simples demais e de baixa rentabilidade.

No entanto, como desenvolver uma nação próspera, visto que considero essa a palavra-chave num sistema econômico liberal? E embora possamos ter diferentes opiniões sobre teorias económicas, como podemos construir um país rico que produz riquezas para posteriormente as redistribuir?

Por exemplo, nós temos...

Este é o objetivo.

Compreendido. Contamos com um sistema de incentivos e apoios, sendo que boa parte desses recursos provém de fundos comunitários destinados ao desenvolvimento económico do país. É notória a nossa tendência em Portugal para aceitar dar suporte quase indiscriminado às diversas empresas e sectores económicos. No entanto, esta abordagem resulta frequentemente numa distribuição tão diluída que acaba por ser praticamente insignificante. Para avançarmos efetivamente, seria necessário seguir o exemplo dos países europeus mais prósperos, concentrando esforços nas áreas nos quais demonstramos especial competência ou potencial promissor. Em Portugal, podemos destacar algumas indústrias exemplares nesse sentido: a metalomecanica e fabricação de equipamento industrial, bem como vários êxitos relevantes no sector da saúde — estamos à frente em várias iniciativas nesta área - além disso, também registamos progressões consideráveis na gestão energética nacional.

Está a referir-se à saúde no campo da pesquisa?

Sim, tanto em medicamentos quanto em dispositivos médicos. Já temos alguns casos emblemáticos em Portugal onde várias empresas líderes se encontram na vanguarda deste setor.

Claro, claro. Na farmacêutica, sim.

O que necessitamos é dar suporte aos setores com maiores possibilidades de impulsionar a economia e onde já dispomos de habilidades científicas, tecnológicas e empresariais, ao invés de tentativas dispersas. A Holanda costuma ser citada como um dos países mais progressistas da UE, tanto no aspecto social quanto econômico. No ano anterior, ela também destacou dez áreas tecnológicas nas quais planeja fazer investimentos futuros. Essa estratégia visa concentrar esforços nesses campos específicos, pois entenderam que abranger todos os ângulos simultaneamente seria insustentável. Considero fundamental continuarmos fortalecendo nossa universidade, assim como vínhamos fazendo, focando-nos nos segmentos onde contamos com alguma expertise e na transmissão desse saber acadêmico às empresas locais. Assim poderemos agilizar essa mudança em processo, embora seja gradual demais até agora.

Moradia. O senhor ocupou o cargo de Ministro da Moradia e das Infraestruturas. Como é que se resolve esta questão? Existe uma solução?

Claro, agora há que entender que esta não é uma área simples. Quem sugere que será fácil neste assunto sobre habitação está a iludir as pessoas. Já fui Ministro da Habitação e algumas vezes isso é destacado. Entendo perfeitamente essa perspectiva. No entanto, o que fizemos? Lançámos um programa público para construir moradias, sendo esse um dos maiores programas públicos desde o PER, implementado pelo ex-Presidente Cavaco Silva. Este processo leva algum tempo até produzir frutos, porém, atualmente estamos vendo os resultados com Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz inaugurando edifícios entregues graças ao nosso projeto inicial e financiado sob meu mandato. Geralmente afirmo que se esses esforços fossem iniciados duas décadas atrás, estariamvários passos à frente. Hoje dispomos apenas de 2% do estoque habitacional disponível publicamente. Para exemplificar, países liberais como a Holanda possuem aproximadamente três vezes mais dessa proporção em termos percentuais. Assim sendo, certamente precisamos encorajar o setor imobiliário privado, contudo cabe também ao governo cumprir seu papel ativamente nesse cenário.

Mas deseja mesmo um estado, e até um estado mais robusto?

Não é um estado volumoso.

Quer ainda mais estrutura estatal?

Não se trata de um estado volumoso. Trata-se de um estado que apoia a edificação de habitações acessíveis para os cidadãos. Além disso, estamos envolvidos na construção e também na renovação de propriedades públicas.

Este relato sobre um estado robusto pode direcionar-nos para o tema do socialismo. Qual será o significado do socialismo no século XXI?

No Partido Socialista de Portugal existe alguma controvérsia pois faz parte da família europeia da social-democracia. Dentro do Partido Socialista Europeu encontramos diferentes grupos: os partidos denominados socialistas localizados principalmente ao sul da Europa, os partidos sociais-democratas situados maioritariamente na zona central do continente, incluindo a Alemanha, bem como os partidos trabalhistas.

Na verdade, esses programas compartilham diversos aspectos semelhantes.

Em Portugal, dado que a nossa democracia tem raízes mais à esquerda, o partido centrista de direita adota a denominação de social-democrata. De fato, quem realmente se enquadra neste modelo político no país é o Partido Socialista. No entanto, considerando aspectos teóricos e conceituais, nos apresentamos como o Partido Social Democrata. Ideologicamente falando, estamos comprometidos com uma economia de mercado enquanto reconhecemos sua relevância, ao mesmo tempo em que atribuímos alta prioridade ao fortalecimento do Estado social, especialmente em áreas como saúde e educação.

Mas deseja que o Estado tenha ainda mais controle sobre nós?

Não, não desejo isso mesmo, era exatamente o que nos faltava. O que pretendo é um Serviço Nacional de Saúde capaz de atender às demandas do nosso povo. Queremos também ter um sistema público de pensões que ofereça pensões justas e decentes.

E deseja um aumento de salário, especialmente até 2029. No entanto, as pessoas desejam que esse aumento aconteça imediatamente e não esperar até 2029.

Não, isso está certo, mas é um objetivo que será elevado anualmente. Definimos esse como um alvo que, se possível, poderia ser alcançado mais cedo.

No entanto, quando atingirmos 2029, esse aumento de salário que o senhor defende poderia já estar desvalorizado devido à inflação, certo?

Assim sendo, se pudermos adelantar a meta, adelantamo-la. Atualmente, precisamos analisar também o nosso sector e as nossas empresas. Ou seja, dispomos de uma rede composta por várias microuniversidades, pequenas e médias empresas; portanto, aumentar o salário mínimo deve ser algo prioritário. Devemos promover este incremento do salário mínimo, porém em conformidade com a aptidão da nossa economia para suportá-lo financeiramente. Caso contrário, poderíamos enfrentar consequências adversas como alguns negócios menores fecharem pois não têm meios suficientes para honrar os vencimentos dos seus trabalhadores.

Imagine se vencesse as eleições, mas com uma margem menoritária. Você, que sempre apoiou a geringonça, irá formar outro acordo à esquerda?

Bem, se vencermos as eleições e estivermos convencionados disso,...

Com um maior apoio à direita.

Estamos confiantes de que isto possa ocorrer e essas semanas têm sido positivas para nós, por isso mantemos esta certeza. Eu espero que o que sucederá com o Partido Socialista enquanto governo reflita precisamente aquilo que este partido ofereceu à Aliança Democrática (AD) nos últimos doze meses. Embora exista uma maioria à direita, a AD respondeu 'não' ao Chega e foram as concessões feitas pelo Partido Socialista que permitiram à AD formar um governo. Desde o início...

Então está a sugerir que precisamos de criar conexões. Não um centro unificado, conforme o concebemos anteriormente, pois os tempos mudaram, mas sim neste espírito de construir pontes.

Um governo do Partido Socialista, não, um governo de Coligação Central, mas sim um governo do Partido Socialista que também possa incluir...

Qual é o motivo da sua antipatia pelo Bloco Central?

Não se trata de aversão. Na minha opinião, o bloco central não contribui para a saúde da democracia. E por quê? Porque teríamos o PS e o PSD focados na gestão do país enquanto daria livre curso ao Chega...

Que iria capitalizar?

Claramente, já que toda a gestão política gera insatisfação, a opção aos principais partidos de centro-direita e centro-esquerda não deve ser um partido extremo. Por esta razão, considero fundamental para o bem-estar da nossa democracia que, quando o PS está no governo, seja o PSD quem conduz a oposição, e vice-versa. No entanto, isto não impede que em questões cruciais esses mesmos partidos possam negociar e colaborar. Tive a oportunidade de trabalhar com Luís Montenegro para aprovarum Orçamento do Estado, demonstrando assim uma capacidade conciliadora do Partido Socialista.

No entanto, isso não tornaria possível aprovar o novo orçamento ou o próximos orçamentos.

Isso nós não sabemos.

Agora isso já não faz diferença.

O que conhecemos é que quando foi elaborado o último Orçamento de Estado, o Partido Socialista mostrou disposição para negociações e eventualmente apoiou-o. Considero então que, com todo o respeito pelos cidadãos portugueses, caso venha a vencer as eleições o Partido Socialista, sem qualquer dúvida, pode esperar um apoio similar da parte do PSD em relação ao que a coligação Aliança Democrática fez conosco.

Então, o senhor irá realizar uma campanha baseada em propostas, onde discutirá sobre suas ideias e planos, ou optará por uma campanha negativa cheia de ataques pessoais?

Tenho procurado discutir tanto o programa quanto as ideias. Na verdade, houve um debate ontem com o líder do Chega, e quando chegamos à fase final dele, ele focou sua atenção no Luís Montenegro, enquanto eu nem mencionei uma só vez esse nome durante todo o meu debate de ontem. No entanto, isso não significa, retornando ao ponto inicial da nossa conversa, que aspectos como nossas qualidades individuais ou a maneira pela qual conduzimos nosso dia a dia e interagimos com aqueles ao nosso redor deixem de ser igualmente cruciais na avaliação dos indivíduos que irão assumir cargos políticos.

Arrependera-se de ter mencionado que ele era desonesto?

Não me arrependo disso. Na verdade, vou além ao afirmar que considero tudo o que aprendemos até agora como sendo suficiente para mim e também para muitos outros. Acredito ser crucial lançarmos uma campanha focada em debater o projeto, as sugestões apresentadas e nossas ideias. É exatamente esse tipo de discussão que pretendo promover. No entanto, evidentemente, nenhum de nós pode ou deve desconsiderar os eventos ocorridos nos últimos meses. Isso certamente influencia nossa opinião sobre qualquer pessoa avaliada.

No entanto, as pessoas também não devem ignorar os problemas relacionados com a sua gestão gubernamental.

A única diferença é que em cada um dos meus casos forneci explicações, o que impediu que se tornassem grandes problemas políticos para mim.

Porém, você acredita que ele não forneceu todas as explicações necessárias? Continham-se ainda muitos pontos obscuros?

Penso que ainda restam muitos pontos por elucidar, isso é indiscutível, e existem várias questões que nem precisavam de esclarecimento e que me bastaram para formular uma opinião desfavorável sobre o Luís Montenegro. Houve explicações que não foram dadas, houve respostas a perguntas dos jornalistas que também permaneceram sem resposta, contudo, já temos informações suficientes em mãos para chegar a uma conclusão negativa acerca dele.

Certamente isso nunca lhe ocorre, na verdade, todos afirmam o mesmo. Perder as eleições. E então?

Não tenho certeza se alguém mais já mencionou isso, mas tudo o que posso afirmar é que...

Não, quando estamos em uma campanha e envolvidos nesta batalha, o objetivo é vencer, certo?

E não devemos nos permitir pensar em outra situação. Trabalharei com humildade para escutar os portugueses, dialogar com eles, apresentar minhas propostas, estando preparado para qualquer desfecho, evidentemente. No entanto, nosso foco está no cenário de sucesso e nem mesmo durante a entrevista desejo dedicar atenção a outros cenários além do vitorioso.

Não há mais nenhum outro cenário em sua mente?

Não, de forma alguma. Estou apenas concentrado em trabalhar nestas semanas para conquistar a confiança do povo português na nossa proposta política.

Já possui um candidato presidencial? Sim, são eles quem se apresentam como candidatos.

Sim, pois a candidatura presidencial não está vinculada a um partido político.

É importante esclarecer isto para todos, pois são as pessoas que se candidatam e posteriormente obtêm ou não o suporte necessário.

Claro, é exatamente por essa razão que o PS não propõe um candidato, assim como o PSD não sugeriu Marques Mendes. Portanto, inicialmente, eu, igual aos restantes sociais-democratas, aguardo para ver se membros da nossa esfera política se inscrevem, e somente então o Partido Socialista tomará uma decisão sobre onde dará o seu suporte.

Muito obrigado.

Foi um prazer.

O gosto foi meu.

Obrigado.

E valeu a cunha.

Muitíssimo obrigado. Fiquei bastante satisfeito. Muito obrigado.

Também gostei.

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