Há várias décadas, a economia portuguesa expandiu-se dentro de um contexto mundial bastante consistente, onde tanto a União Europeia quanto os Estados Unidos mantinham relações mutuamente benéficas. A UE reconhecia a importância do dólar nos negócios globais e recebia em retorno a segurança proporcionada pelos Estados Unidos através de sua "cortina" nuclear protetora. No entanto, esse status quo atualmente encontra-se ameaçado. Com a chegada ao poder do presidente Trump, houve uma intensificação das medidas protecionistas, como por exemplo as taxas impostas aos bens produzidos na Europa, indicando claramente que os EUA estão adotando posturas mais focadas em suas próprias necessidades, até mesmo à custa de antigos parceiros.
Neste cenário novo e mais fracionado, a União Europeia precisa estabelecer-se como um player econômico independente, possuindo uma indústria robusta, atualizada e sedutora. Para isso acontecer, é necessário reduzir significativamente a papelada administrativa, aumentar o alinhamento interno e desenvolver uma nova aspiração geopolítica econômica. Portugal está em posição para participar activamente nesta abordagem continental.
No entanto, ter ambições requer tomar decisões. Podemos permanecer presos à mentalidade da dependência e aos níveis inferiores, ou podemos definir claramente em quais áreas desejamos ter um impacto significativo na 'nova' economia europeia. Portugal possui infraestrutura estabelecida, competências técnicas sólidas e algumas vantagens competitivas genuínas, porém necessita de direcionamento claro. A Europa está buscando aumentar sua produção e ganhar maior independência tecnológica. Para isso, Portugal poderia oferecer uma contribuição valiosa ao harmonizar seus objetivos com essa nova abordagem industrial continental.
Neste período em que a União Europeia busca relocar produções, atrair investimentos estratégicos e fortalecer cadeias de valor cruciais, é fundamental que as companhias portuguesas explorem essa chance, atuando como aliadas principais nesse processo. Para isso, elas devem buscar ter escalas adequadas, elevada qualificação e constante inovação. Aporte financeiro privado apenas se intensifica quando há um ambiente estável fisicamente, com normativas previsíveis e, o mais crucial, uma situação política tranquila.
Devemos encarar esses desafios como chances. Apostar na indústria de transformação, nos serviços tecnológicos especializados, na produção sustentável, nas energias limpas e na agricultura inteligente são investimentos em áreas onde as companhias portuguesas já demonstram competência. No entanto, esse potencial apenas será explorado se o contexto europeu for entendido e prontamente incorporado. A União Europeia valoriza aqueles que inovam, que vendem internacionalmente e que apoiam sua independência econômica. Os regulamentos foram alterados. Portanto, é necessário atuar com rapidez e estratégia.
Portugal poderia se tornar um dos principais beneficiaries dessa mudança estratégica na Europa. As companhias portuguesas não necessitam de proteção comercial, mas ao invés disso de oportunidades justas para disputa. Elas requerem uma administração pública capaz de reconhecer o valor do prazo, a relevância da constância e as consequências das normativas legais complicadas. É necessário também incluí-las em iniciativas europeias ousadas, desde ter acesso a recursos financeiros até desenvolver habilidades, contudo sempre mantendo padrões rigorosos, monitorando os progressos e concentrando esforços.
Tratar-se-á não só de ter acesso aos fundos europeus. O objetivo é estabelecer condições que permitam às empresas que atuam em Portugal encontrar profissionais qualificados, estrutura adequada, colaboradores e uma regulamentação institucional que incentive sua competitividade. Portugal não precisa ser líder em todos os aspectos, mas sim — e deveria — destacar-se nas áreas em que possui maior capacidade de agregar valor.
Portugal não deve se limitar a ser apenas uma nação periférica da Europa; ao invés disso, pode atuar como um elo entre diferentes blocos econômicos. Para alcançar esse status, o país necessita tornar-se um território avançado tecnicamente e digno de confiança. Contudo, para que isso aconteça, é fundamental que as iniciativas partam das próprias empresas nacionais.