O que significa sofrer de desdmórfica corporal?
O transtorno de distimoria corpórea, também referido como desfiguração corporal, caracteriza-se pela ansiedade intensa em relação a um ou mais aspectos do próprio corpo que o indivíduo considera imperfeições, embora essas supostas falhas sejam praticamente invisíveis ou mínimas aos olhos dos demais.
As pessoas que têm esta doença veem esses detalhes físicos como se de uma deformidade se tratassem, apesar de terem uma aparência perfeitamente normal. Esta crença leva a pensamentos e comportamentos repetitivos, em resposta a essas preocupações.
No entanto, não é usual experimentarmos algum descontentamento com nossa imagem corporal?
Sim, é bastante vulgar observarmos-nos e identificarmos "imperfeições" que os outros nem notam. No entanto, geralmente esta falta de contentamento por traços que apenas nós detectamos não provoca grande angústia e tem uma mínima influência, ou quase nenhuma, na rotina das pessoas.
Pessoas que enfrentam dismorfofobia vivem experiências bastante distintas. "Essa condição difere de uma mera preocupação estética pois desempenha um papel crucial na forma como as indivíduos se definem, em suas relações consigo mesmas e nas interações sociais, resultando frequentemente num profundo sofrimento", explica Maria Coimbra, psicóloga clínica e pesquisadora. Centro de Pesquisa do Núcleo de Estudo e Intervenção Comportamental-Cognitiva (CINEICC) , da Universidade de Coimbra, onde atualmente está a desenvolver o seu trabalho de doutoramento com enfoque na abordagem à dismorfia corporal.
Em que tipo de características se focam as pessoas com dismorfia corporal?
A preocupação pode focar-se em qualquer característica física ou parte do corpo e pode ir mudando com o tempo.
Contudo, é comum que o descontentamento se dirija para problemas como...
- ... a configuração ou o volume da musculatura (mais comum entre os homens);
- … em pequenos pontos de gordura localizada (na barriga ou nos braços, por exemplo);
- … em “imperfeições” mínimas na pele, como pequenas rugas;
- … na aparência, textura ou quantidade de cabelo;
- … ou ainda em partes do rosto como o nariz ou os dentes.
Qual é o conjunto de sinais que aparecem nesta condição?
A psicóloga Maria Coimbra esclarece que existem três sinais principais:
- Pensamentos obsessivos relacionados a um ou mais aspectos específicos da aparência física, considerados por quem os tem como "imperfeições", embora sejam praticamente invisíveis ou irrelevantes para outras pessoas.
- Comportamentos repetitivos para esconder, evitar ou verificar as características que causam preocupação, como esconder com roupa ou maquilhagem, evitar ver-se ao espelho ou, pelo contrário, ver-se ao espelho repetidamente e comparar-se mentalmente aos outros;
- Emoções intensamente humilhantes, frequentemente resultando na evitação de circunstâncias, indivíduos ou ambientes particulares por causa dessa ansiedade.
“Ainda que busquem assistência, dado que sua preocupação é vista como algo real e compreensível, acabam por buscar soluções mais nas áreas da cosmética, dermatologia ou cirurgia plástica do que nos serviços de saúde mental. Esses tipos de tratamento nem sempre são adequados e podem até piorar os sintomas no futuro.”
O que causa esta doença?
Todas as perturbações mentais e/ou psicológicas são uma conjugação de fatores genéticos, biológicos e ambientais. No caso da dismorfia corporal, entende-se que os fatores ambientais (a experiência de vida), pode ter um grande peso no desenvolvimento da doença. “Sabe-se que existe uma grande associação com experiências precoces de bullying e/ou humilhação ”, diz Maria Coimbra.
Os primeiros sintomas surgem, por norma, no final da infância ou início da adolescência, entre os 12 e os 15 anos, pelo que “experiências traumáticas nesta fase, que fazem com que a pessoa se possa sentir inferior ou inadequada devido à sua aparência física, são consideradas um dos principais fatores de risco”. A psicóloga frisa que “comentários externos centrados na avaliação da aparência física, principalmente quando estes são feitos por figuras de referência”, são também um fator de risco conhecido.
É possível prevenir?
Não é possível prevenir esta doença, mas é possível adotar comportamentos preventivos, que reduzem a probabilidade de a desenvolver.
O primeiro é estar atento — sendo isto especialmente válido para os pais: “identificar cedo os primeiros sintomas ou a presença de fatores de risco, e ter acesso a intervenção adequada imediata é o primeiro passo para prevenir”.
As redes sociais — que podem ser associadas a perturbações relacionadas com a imagem — não são problemáticas por si só, diz a psicóloga, “mas é preciso garantir que há uma utilização saudável, quer em termos de frequência, quer em termos de conteúdo”, sendo que exposição constante a ideais de beleza irrealistas e imagens muito editadas, não é benéfico.
A dismorfia corporal está associada a outras perturbações mentais?
Sim. É comum para quem tem esta perturbação ter também outras associadas. As mais frequentes, diz Maria Coimbra, são as perturbações do comportamento alimentar (como a anorexia e a bulimia), perturbação obsessivo-compulsiva , a ansiedade social e generalizada e a depressão .
A explicação é que a presença de outras condições médicas atua como um obstáculo para o diagnóstico do transtorno da desmorphia corporal. Como resultado, essa condição tende a ficar ignorada e seus sinais acabam sendo erroneamente associados aos dos outros distúrbios presentes.
Como se trata?
O tratamento indicado é a conjugação de psicoterapia com medicação . Para a psicóloga, a intervenção cognitivo-comportamental é a única com eficácia comprovada nesta perturbação, mas, como há estudos que mostram ainda taxas de recaída superiores às desejáveis, “estão a ser estudadas novas abordagens de intervenção, nomeadamente baseadas em terapias contextuais-comportamentais como a Terapia da Aceitação e Compromisso (ACT) e a Terapia Focada na Compaixão”.
Atualmente está em desenvolvimento a primeira iniciativa de avaliação e intervenção voltada para a dismorfia corporal em Portugal, sendo que Maria Coimbra é uma das participantes deste projeto. Quando o Espelho Está Errado – que é gratuito e aceita inscrições — está associado ao Centro de Pesquisa em Neuropsicologia e Intervenção Comportamental-Cognitiva, ligado à Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra .